Por que os atributos de “eterno” e “criador” são inseparáveis?
A razão é que a prova racional exige o seguinte:
1 — Todo acontecimento precisa de um causador
Tudo o que tem um começo necessita de alguém que o tenha feito existir. E se esse causador fosse ele mesmo criado e tivesse um começo, também precisaria de outro causador, e assim sucessivamente sem fim.
2 — É impossível aceitar uma cadeia infinita de criadores
Uma cadeia interminável de criadores impossibilita o início da criação, porque nunca haveria um ponto de partida. Portanto, deve existir um Ser necessário, cuja existência não é precedida por inexistência.
3 — Somente o Eterno pode ser Criador
Pois quem não é precedido pela inexistência, nem precisa de quem o traga à existência, é o único capaz de criar outros seres. Quem não é eterno não pode criar, pois não existiu por si mesmo.
4 — Portanto:
O Eterno pode ser Criador.
O Criador deve ser Eterno.
A relação entre ambos é racional: não existe Criador que não seja eterno, e não faz sentido uma eternidade sem capacidade de criar.
Análise racional
1 — A percepção humana da própria existência é certa
A existência é algo perceptível de forma direta e não precisa de prova.
A pergunta, então, não é: “Nós existimos?”
Mas sim: “Como essa existência surgiu?”
2 — A existência só pode seguir uma de duas possibilidades
Primeira possibilidade:
Que a existência tenha sido precedida por um nada absoluto — ausência total de qualquer coisa.
Isso é racionalmente impossível, pois:
- O nada não é uma coisa;
- O que não é uma coisa não pode produzir coisa alguma;
- “O nada cria” é uma contradição em si.
É impossível logicamente que “nada” se transforme em “algo”. O nada não tem poder, propriedades ou potencial.
Segunda possibilidade:
Que a existência seja precedida por um Ser necessário, eterno, que não teve início.
Essa é a única possibilidade racional, pois explica a existência como originada de um Ser que possui o poder de criar.
3 — A impossibilidade do regressus ad infinitum
Mesmo que imaginemos uma causa anterior do universo, essa causa:
- Ou é criada (então precisa de outra causa),
- Ou é eterna.
Mas uma série infinita de causas impede uma causa primeira — e sem causa primeira não haveria universo.
Portanto, deve existir uma causa inicial não criada: o “Ser Necessário”.
4 — Conclusão
Reunindo as premissas:
- A existência do mundo é certa;
- É impossível surgir do nada;
- É impossível uma cadeia infinita de criadores;
A conclusão necessária é:
Existe um Ser eterno e necessário de quem o mundo procede.
O Ser Necessário e Seus atributos
1 — O Ser Necessário não pode ser do mesmo tipo do mundo
O mundo — humanos, universo e vida — é:
- Necessitado
- Limitado
- Mutável
- Imperfeito
Tudo isso implica que é criado, e o criado não pode ser eterno.
2 — Quem é necessitado para permanecer, é mais necessitado ainda para existir
O que não pode manter sua própria existência, não pode tê-la criado.
3 — Portanto, o homem, o universo e a vida são criados
Pois são:
- Necessitados
- Frágeis
- Imperfeitos
- Mutáveis
- Incapazes de se manter sozinhos
4 — Quem é o Criador?
Apenas o Ser eterno, necessário, que:
- Não é necessitado
- Não é imperfeito
- Não muda
- Subsiste por Si
- A partir Dele procede toda existência
A unicidade do Ser Necessário
1 — O Ser Necessário, por natureza, não pode ser múltiplo
Supondo dois “Seres Necessários”:
a) Se forem idênticos em tudo:
Não faz sentido dizer “dois”, pois número exige diferença.
b) Se forem diferentes:
O que falta em um está no outro — logo ambos são imperfeitos, e imperfeito não é Ser Necessário.
2 — A multiplicidade leva à contradição
Se houvesse dois criadores independentes:
- Se suas vontades divergissem, um venceria e o outro seria incapaz. Incapaz não pode ser deus.
- Se suas vontades concordassem sempre, um dependeria do outro, ou ambos dependeriam de uma lei acima deles.
Logo, nenhum seria divino.
3 — A unidade do sistema universal indica um único Criador
A harmonia:
- Das leis físicas
- Do movimento das galáxias
- Da energia
- Das condições da vida
mostra uma única vontade ordenadora.
Conclusão lógica final:
O Ser Necessário é eterno e único.
A prova racional dos atributos do Criador
1 — A existência do Criador é algo inato
A natureza humana sente:
- Fraqueza diante do universo
- Necessidade de uma força superior
- Dependência por sustento, proteção e orientação
Se deixado sem distorções culturais, o ser humano crê no Criador naturalmente.
2 — A origem desse sentimento
A natureza humana reflete sua própria essência:
- É limitada
- É carente
- É mortal
- Não controla o próprio destino
Percebendo seu próprio limite, o ser humano percebe a necessidade do Ilimitado.
3 — A história de Abraão como exemplo da natureza inata
Ele analisou estrelas, lua e sol, rejeitou-os quando desapareceram, e concluiu que o Criador não pode ser algo mutável ou perecível.
Conexão entre razão e natureza humana
Ambas afirmam a mesma verdade:
A existência do Criador é uma necessidade racional e inata.
A incapacidade do homem de elaborar um sistema perfeito
1 — O ser humano é limitado por natureza
Porque:
- Seu conhecimento é limitado
- Ele muda com o tempo
- É movido por interesses, medos e desejos
- É influenciado pelo ambiente
- Não prevê plenamente o futuro
Portanto, não pode criar um sistema completo, eterno e universal.
2 — A realidade confirma o fracasso dos sistemas humanos
Democracia, socialismo, liberalismo, etc., todos demonstram:
- Contradição
- Injustiça
- Instabilidade
- Crises
- Guerras
- Exploração
Porque foram feitos por um ser limitado.
3 — A divergência humana torna inevitável a contradição das leis
Cada cultura, época, interesse e política produz sistemas diferentes e conflitantes.
4 — Conclusão racional e natural
O limitado não pode legislar para o ilimitado.
O imperfeito não pode criar o perfeito.
Por que somente o Criador pode fornecer o sistema correto?
Porque Ele:
- Conhece plenamente o ser humano
- Não muda
- Não tem interesses
- Pode criar um sistema universal válido para todo tempo e lugar
Por que o último sistema divino é o Alcorão?
1 — A revelação precisa ser preservada
Se o sistema divino pudesse ser corrompido, sua finalidade se perderia.
2 — A história prova que as revelações anteriores não foram preservadas
A Torá foi alterada, o Evangelho não existe em sua forma original, etc.
Portanto, eram revelações temporárias.
3 — A revelação final precisa ser textual
Para que possa ser preservada literal e oralmente, como ocorreu com o Alcorão.
4 — O texto final precisa ser definitivo e não pode ser substituído
Porque um sistema final não pode ser mutável.
5 — Por que apenas um Mensageiro final?
Porque após a revelação completa e preservada não há necessidade de novos mensageiros.
6 — Por que Muhammad ﷺ especificamente?
Porque:
- Sua mensagem é universal
- Seu milagre (o Alcorão) é permanente
- Sua biografia é preservada
- Seu sistema é completo
Portanto, ele é inevitavelmente o último Mensageiro.
Conclusão lógica final
- O Criador é único e eterno.
- Só Ele pode legislar.
- Seu sistema só pode ser conhecido pela revelação.
- A revelação final é o Alcorão.
- Seu Mensageiro final é Muhammad ﷺ.
- Logo, aplicar o sistema do Criador é uma necessidade racional, além de religiosa.
A necessidade racional de aplicar o sistema do Criador
1 — O homem é incapaz de produzir um sistema completo
Como já provado.
2 — Sem um sistema completo, o ser humano sofre
Surgem injustiças, caos, conflitos e sofrimento.
3 — A natureza humana exige um Legislador perfeito
4 — O sistema divino é o único completo e aplicável a todos os tempos
Conclusão:
Aplicar o sistema do Criador é uma necessidade racional, natural e existencial.
Após o fim da missão dos profetas: a necessidade de estabelecer o sistema divino
Deus instituiu a khilāfah, o governo que:
- Aplica Seu sistema
- Cuida dos assuntos das pessoas
- Estabelece a justiça
- Conduz a humanidade à luz da revelação
Como dito pelo Profeta ﷺ:
“Os filhos de Israel eram conduzidos por seus profetas. Sempre que um morria, outro o sucedia. Mas não haverá profeta depois de mim; haverá califas e serão muitos.”
Logo, manter o sistema divino após o fim da profecia é um dever.
Munther Abdullah